4.4.25

Voltam as portas

 


Entrada de um edifício de apartamentos, Paris, 1912.
Arquitecto: Louis Sorel.

Daqui.

04.04.1914 – Marguerite Duras

 


Marguerite Duras em Saigão, actual Ho Chi Minh. Foi uma das grandes escritoras do século XX francês, também realizadora e guionista de filmes, para além de resistente durante a Segunda Guerra Mundial como membro do Partido Comunista Francês.

É vasta a sua obra no domínio da literatura, de início identificada com a corrente do nouveau roman, mas destaco dois livros que nunca esquecerei: L'Amant (1984) e antes, bem antes, Moderato Cantabile de 1958.

Esta última obra viria a ser adaptada para cinema por Peter Brook, em 1960, e quem o viu terá certamente retido as interpretações de Jeanne Moreau e de Jean-Paul Belmondo. Inesquecível também, o guião que Marguerite Duras escreveu para que Alain Resnais realizasse Hiroshima mon amour. E quando há meia dúzia de anos fui ao Japão, e me passeei pelo local que foi vítima de uma das maiores tragédias da humanidade, não me saía da cabeça: «Tu n'as rien vu à Hiroshima!»




.

Autárquicas a quanto obrigas…

 


Daqui.

57 anos sem Luther King

 


O comboio do progresso está a descarrilar?

 


«Talvez pessoalmente assustado com as alterações políticas, culturais, artísticas, sociais e tecnológicas que a partir da Revolução Industrial se sucediam a grande velocidade, com sucessivas marés de vanguardas revolucionárias, vanguardas financeiras, vanguardas industriais, vanguardas tecnológicas, vanguardas científicas e vanguardas artísticas a revolucionar vários aspetos da vida e a criar novos focos de conflito, o historiador francês Daniel Halévy crismou a expressão “aceleração da história” para defender que todas estas mudanças parecem fazer comprimir o tempo histórico, encurtando muito o intervalo entre acontecimentos importantes e relevantes.

Halévy foi um inicial apoiante do governo de Vichy na França ocupada pelos nazis, admirava o conservadorismo e nacionalismo de Maurras e escreveu em 1948 Essai sur l’accélération de l’histoire, onde explicava essa sua análise.

O medo reacionário da mudança que, no fundo, Halévy espelhava com a tese de o ser humano ser incapaz de acompanhar, absorver e acomodar tal velocidade de transformação, foi indiretamente recuperado por pensadores posteriores, muitos deles rotulados de progressistas, sobretudo quando começaram a espantar-se com os efeitos da internet e da globalização, que ainda aumentaram mais a velocidade de tudo o que se passa à nossa volta.

Por exemplo, o alemão Hartmut Rosa fala de “alienação temporal” de cada um de nós por causa da aceleração do tempo; outro alemão, Ulrich Beck, defende que vivemos numa “sociedade de risco”, com crises políticas, sociais, climáticas, tecnológicas e financeiras que nenhum governo consegue controlar; o francês Paul Virilio inventou a “dromologia” (“dromas” quer dizer corrida em grego) que advoga ser uma ciência para o estudo dos efeitos da velocidade das novas tecnologias; o polaco Zygmunt Bauman acha que esta velocidade de transformações torna tudo efémero, instável, incerto e volúvel, seja para as sociedades, seja para os indivíduos, e chamou-lhe “modernidade líquida”; a norte-americana Shoshana Zuboff denuncia a extraordinária velocidade de acumulação de riqueza das grandes empresas da sociedade digital e escreveu A Era do Capitalismo de Vigilância onde aponta empresas como a Google e Facebook como “ladras” dos dados pessoais, empresarias, científicos e artísticos de todos nós, para gerarem gigantescos lucros e transformarem a sociedade, controlando consumos, ações e pensamentos dos indivíduos (“ai” a inteligência artificial!).

Em 100 anos a lista de pensadores pessimistas sobre os efeitos desta aceleração da história cada vez maior e mais ampla cresce igualmente a grande velocidade mas, apesar de todos os avisos, de todos os diagnósticos e de todas advertências, nada desacelera, nada pausa, nada corrige a rota.

Talvez estes pessimistas estejam totalmente errados mas, se olhar para as notícias das últimas semanas, entre as reações às taxas alfandegárias de Trump e o kit com canivete suíço da Comissária Europeia Hadja Lahbib; entre mais matanças de palestinianos e o descarado saque das riquezas da Ucrânia; entre a corrida aos armamentos e a ameaça da guerra nuclear; entre a degradação da democracia e o prenúncio norte-americano de ocupação da Gronelândia; entre líderes da União Europeia claramente estupidificados e líderes portugueses significativamente alienados... parece-me que, pelo menos, esta conclusão é válida: neste mundo acelerado pelo maravilhoso comboio do capitalismo digital, a velocidade estonteante de más decisões políticas está, com grande rapidez, a levar-nos ao descarrilamento global.»


3.4.25

Casca de ovo

 


Par muito raro de vasos de porcelana casca de ovo Rozenburg Den Haag, São as últimas peças de porcelana casca de ovo que sairiam da fábrica, pouco antes de seu encerramento definitivo em Agosto de 1914.
Pintados por Samuel Schellink em Julho de 1914.

Daqui.

Uma resposta da Provedora do Telespectador da RTP

 


Tendo apresentado um protesto pelos termos da entrevista de José Rodrigues dos Santos a Paulo Raimundo, acabo de receber esta resposta:

. Exma Senhora Joana Lopes,

Cerca de 1900 pessoas enviaram-me protestos contra a entrevista feita por José Rodrigues dos Santos a Paulo Raimundo. Bastaria uma queixa para eu lhe dar atenção, mas neste caso foi atingido um número inusitado. O assunto foi debatido na praça pública por diferentes comentadores e jornalistas, com opiniões contraditórias, e ocupou um espaço imenso e intenso nas redes sociais.

Depois de analisar todas as entrevistas desta fase pré-eleitoral, considero que a de Paulo Raimundo foi objetivamente mal sucedida e não permitiu esclarecimentos sobre as posições do PCP. Foi claramente diferente de todas as outras. O jornalista é suficientemente experiente para ter entendido como bordão o “não” que repetidamente Paulo Raimundo usou antes das respostas. Todos teríamos ficado a ganhar se tivesse partido para abordar outros temas em vez de transformar a entrevista num debate sobre uma única questão.

Não faz parte das minhas atribuições, como me foi proposto - ou mesmo exigido - por muitos telespectadores, despedir, abrir processos disciplinares, afastar ou tomar algum tipo de decisão sobre a vida profissional de quem trabalha nesta casa. As minhas funções são, aliás, explicitadas no Estatuto dos Provedores. Mas posso e devo assinalar situações em que considero que o serviço público não foi cumprido. Neste caso, é essa a minha opinião.

O próximo programa Voz do Cidadão é dedicado à série de entrevistas a dirigentes partidários das últimas semanas, contando com a participação de António José Teixeira, José Rodrigues dos Santos e João Adelino Faria.

Com os melhores cumprimentos
Ana Sousa Dias
Provedora do Telespectador

03.04.1926 – Luís Sttau Monteiro



Faria hoje 99. Em jeito de homenagem, uma «Redacção da Guidinha». 

Senhores da política:

Oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua senão qualquer dia estão no olho da rua a ouvir o que se disse na rua.

Jornal, 22.09.1978
.

O silêncio dos idiotas úteis

 


«Uma das primeiras medidas das primeiras frenéticas semanas de Trump na Casa Branca foi mandar apagar das publicações das agências públicas dos EUA toda e qualquer referência às alterações climáticas.

Agora, a mira censória apontou para às universidades. A Universidade de Duke, que recebeu 863 milhões de dólaresno último ano, tem os fundos federais em risco. A Johns Hopkins anunciou o despedimento de mais de dois mil funcionários, depois de perder 800 milhões. Uns cortes serão técnicos, outros resultaram de represália política. É o caso da Universidade de Columbia, que perdeu 400 milhões por não ter proibido manifestações de solidariedade para com Gaza.

Foi à boleia de uma nadadora transgénero que Trump congelou 175 milhões destinados à Universidade da Pensilvânia. Um corte com impacto em investigação em saúde pública, ciência fundamental e medicina de ponta.

A administração federal limitou drasticamente as “despesas gerais”, que sustentam edifícios, laboratórios, energia e pessoal técnico, sem os quais a investigação científica é impossível. A Universidade do Estado do Michigan já anunciou que suspendeu um centro de investigação médica por falta de fundos.

A asfixia vai continuar até que todos se curvem ao poder de Trump. Columbia foi a primeira, anunciando que vai alterar o seu código de conduta.

Na sua campanha para o Senado, há quatro anos, J.D. Vance pôs todas as cartas na mesa: “As universidades são o inimigo”. E comparou-as à Matrix: “Muito do que impulsiona a verdade e o conhecimento, tal como o entendemos neste país, é determinado, apoiado e reforçado pelas universidades. Porque consentiram os conservadores esta tirania intelectual?”

Ninguém levou a sério, porque as universidades são o motor da inovação que torna a América líder nas áreas de ponta da economia do conhecimento. Como lembra Fareed Zakaria, os EUA representam cerca de 4% da população mundial e 25% do seu produto interno bruto, mas têm, conforme as classificações, entre 64% e 72% das 25 melhores universidades do mundo.

O GUIÃO HÚNGARO

Como Anne Applebaum explicou em “Crepúsculo da Democracia”, os novos autoritários não precisam de abolir as instituições, basta controlarem-nas. Orbán transformou universidades públicas húngaras em “fundações privadas” geridas por aliados do regime. Foi a fachada de autonomia que garantiu a obediência.

Nos EUA, o caminho será diferente, mas o objetivo é o mesmo. E o ataque à liberdade académica usa o mantra que tantos repetiram em nome da liberdade: a ideologia de género, o politicamente correto, o “cancelamento” de tradições e o antissemitismo representado por qualquer apoio à causa palestiniana.

Quando a “elite” liberal resiste ou contraria a política do governo, já sabe que contará com retaliações de Trump, que promete vingar os anos em que os conservadores se sentiram oprimidos pelo discurso das elites: se as universidades respondem em tribunal, o Departamento de Justiça e Segurança Interna ordena a punição do respetivo escritório de advogados.

Nem o poder judicial escapa, com Trump a exigir o afastamento do juiz que tentou bloquear centenas de deportações ilegais. Faz sentido: o sistema que os homens do dinheiro combatem é o que nos tem defendido do seu poder. Como explicou a juíza Marjorie Rendell, a justiça não tem o poder da espada ou da bolsa, depende apenas do respeito. Sem ele, nenhum Estado de Direito resiste.

Tribunais, imprensa e universidades. Trump cumpre à risca o guião seguido na Hungria e, antes dela, na Polónia.

O argumento é sempre o mesmo: não pode ser um poder não eleito a limitar a vontade popular. Para o braço de ferro com a Justiça, escolheu as deportações. Primeiro, divide-se o mundo entre o “povo puro” e uma “casta corrupta”, legitimando o ataque às instituições que contrariem a expansão do poder da verdadeira casta. Depois, transformam-se os adversários políticos em inimigos existenciais. Por fim, criam-se realidades alternativas, alimentadas por redes sociais e canais de propaganda, onde factos deixam de importar e tudo pode ser justificado.

CENSURAR O PENSAMENTO E A MEMÓRIA

Seguindo o guião de todos os movimentos autoritários, reescreve-se a realidade. Palavras como “igualdade”, “diversidade”, “racismo”, “discurso de ódio” e, pasme-se, “mulher” são apagadas de sites governamentais. Trabalhos académicos são censurados por incluírem termos “proibidos”. Currículos escolares são vetados. Os académicos tentam contornar o uso de certos temas para não verem o financiamento dos seus projetos automaticamente bloqueado. As palavras moldam a realidade e, na América “grande outra vez”, as mulheres e as minorias devem saber o seu lugar.

Isto, para alem de um movimento de censura de livros, liderados por grupos organizados, que recebem dinheiro da direita política. Só no ano letivo de 2023-2024 foram banidos 10 mil livros das escolas e bibliotecas. Como explicou o professor Peter Carlson, da Green Dot Public Schools, grande parte “aborda diretamente a identidade e não se conforma com a identidade hegemónica”. Mas a censura dos olhos das crianças vai até livros como “Maus” e “Diário de Anne Frank”, que nos habituámos a ter como fundamentais na nossa formação cívica. Não se trata apenas de inviabilizar grupos, mas de apagar parte da história.

Nos últimos anos, fui fazendo advertências quanto à esquerda que se deixa entrincheirar em identidades fechadas e incompreensíveis, desprezando a opressão e a desigualdade económica e social. Considerei e considero que a deriva identitária da esquerda resulta da sua própria desistência, uma cedência à lógica individualista do neoliberalismo, onde a biografia pessoal substitui o programa político, a culpa substitui a persuasão, as minorias cada vez mais estreitas substituem a maioria social trabalhadora.

Mas nunca me enganei no alvo, que, na cedência à agressividade conservadora, permitiu que qualquer sentido de decência e justiça levasse com o ferrete “woke”. Sempre soube que a guerra cultural reacionária fingia lutar pela liberdade de expressão sem nunca ter querido menos do que apagar a emergência de novas vozes. Dividir poder provoca sempre ressentimento. E a doutrinação misógina de rapazes adolescentes, alimentada por uma indústria conservadora de youtubers e podcasters, criou o exército de apoio ao retrocesso civilizacional a que assistimos. E esse retrocesso nunca é responsabilidade dos que se libertam e exigem o seu quinhão de poder e visibilidade.

A VITIMIZAÇÃO DO PODER

Nas duas últimas décadas, ouvimos humoristas milionários queixarem-se, em programas da Netflix, da censura que os oprimia. Sentiam-se cancelados por haver quem, no uso da sua liberdade, se indignava, com ou sem razão, por eles dizerem o que sempre se disse. Não sabiam que a resistência à censura tem menos glamour e proveito. Se querem saber o que é, aqui a têm. Não costuma vir de minorias perseguidas, mas de quem tem a bolsa e a espada para a impor. É por ela ser brutal que o ruído do protesto é menor.

A resistência a quem realmente tem o poder de realmente censurar paga-se realmente cara. Por isso já não ouvimos os que se agitavam contra a “brigada do politicamente correto” e os que viam em qualquer boicote estudantil uma ameaça à sua liberdade. Já não têm de enfrentar milhares de puritanos indignados que apelam a boicotes nas redes sociais. Agora é o poder que nunca deixou de o ser a usar o aparelho do Estado para voltar a calar os que foram calados por milénios.

Agora é a sério e, por isso, calaram-se os queixumes com a “cultura de cancelamento”. É claro que estes idiotas úteis nunca apoiaram Trump. Até o detestam. Apenas foram justificando a ascensão da barbárie de quem nunca deixou de ter o poder sobre os excessos de quem nunca o teve. É por isso que são idiotas. Convencidos de que combatiam a elite, aliaram-se à elite que dispensa a democracia para perpetuar o poder que nunca quis largar. É por isso que lhe foram úteis.»


Dois Moedas?

 


2.4.25

Mais perfume

 


Frasco de perfume de vidro camafeu. 
Émile Gallé.


Nelma Serpa Pinto

 


Entrevistou ontem, na SIC N, Pedro Nuno Santos e adoptou uma versão 2.0 do que José Rodrigues dos Santos fez com Paulo Raimundo na RTP. Só faltou piscar o olho à saída.

Não sei se está planeado que enfrente Mariana Mortágua, mas tome um calmante e faça melhor os TPCs. Pode sair o tiro pela culatra no seu estatuto de estrela ascendente na SIC.